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2.4.11

Para a minha lápide




Eis-me aqui. sou eu!
nem santo nem fariseu
(serei filho de ninguém
que me importa tal ouvir?...)
Sou eu, o louco
sem lei nem fé,
o tresloucado
que em todo o lado
sonha ser...
e é!

Sou eu, tal qual!
o incompreendido
que numa noite gelada
sem luz sem nada
Deus ou o Diabo
à rua deitou.
Infausta glória!...
fui vã vitória
assim...
mas sou!

Álvaro Giesta

2.3.11

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.



Não posso adiar por mais tempo o meu grito.

Deixem-me gritar.
Deixem-me estas amarras romper.
Não me roubem o meu grito
nem a possibilidade de gritar
e dizer.

Não posso adiar por mais tempo este grito.
Adiá-lo para outro século que não este
era roubar a mim mesmo
a possibilidade de viver.

Não adio mais o meu grito.
Como não adio também o amor.
Como não adiei também
- quando a perdi -
a vontade de chorar por minha mãe.

Deixem-me chorar.
Porque muitas vezes o meu choro
é a minha forma mais pura e mais nobre
de gritar.

Já não adio mais a vontade reprimida e solitária.
Por mares e desertos longínquos
e distantes
farei o meu grito de revolta
ecoar.

Acabem-se as mordaças da vontade
a neblina nos horizontes
as fronteiras, a injustiça.
Vertam a verdade duma vez por todas
as fontes da justiça.

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.
Não posso!
Não me amordacem
que eu não me deixo por ninguém amordaçar.
Deixem-me só mas com a minha liberdade…
Não me impeçam de gritar.

Álvaro Giesta (pseud)

1.2.11

Prece


já não é!
tudo n'Ele fenece!
numa cruz crucificado
por mil espinhos trespassado
o seu corpo adormecido
já não quer
e arrefece

já nada resta
neste corpo amortalhado!
encobriu-se o sol poente
no horizonte
e fende ao meio, esta tarde fria,
faiscante raio.
há uma prece em agonia
põe-se mais cedo o sol
sem ocaso

Álvaro Giesta

3.1.11

Na fome do beijo



No outro lado do mundo
tu
inteiramente ávida de prazer.
Gruta virgem esquecida nua
à luz da noite apagada
numa vertiginosa ânsia fria e crua.

Quando ao peito te aperto a sombra
de encontro ao meu esquecida
sinto os meus dedos que agarram o espaço
vazio
do teu corpo irrevelado.

Arrefecem-me os sentidos
porque te sinto eternamente morta
na distância inalcançável
do limite do tempo.

Fora de ti existes tu
e o mundo
e a esplêndida violência do teu cio
por nascer.
O teu regaço, quando quer, destrói o poema
e a luz do beijo inocente e puro
e o hálito
e o perfume da alma no primeiro sorriso.

As estrelas testemunham a minha loucura…
Na carne e no tempo que perdi
as mãos sustêm a fome
e dormem no silêncio da fonte
que lateja de prazer.

Álvaro Giesta

1.9.10

Nas crateras do beijo e do silêncio


Se te pudesse prender a mim
por um dia,
ganhava a esperança e a tua alma.
Ganhava o tempo
e o mosto do vinho novo crepuscular
das crateras do beijo
perdido em explosões de imponderáveis
desejos.

E morreria contigo!
Morreria no espaço do teu corpo
desejado,
No silêncio da palavra no verbo
no verde da giesta e da urze
no campo de trigo.

Subiria os degraus do altar do teu peito
virgem com sabor ao leite
da vida
que cresce em ti como um lacre
como o testamento do teu corpo
fechado no segredo dum cofre.

O fermento do pão o mosto do vinho novo
as maravilhas da noite
o teu sorriso imenso derramado em mim
como um rio…
Os espasmos, os verdadeiros espasmos
do teu corpo vibrante
em segredo…
Morreria contigo!


Álvaro Giesta