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21.11.10

Novembrina Solene


Seu Zuzé, as tuas vacas como estão?

Longe daqui
subimos os morros

Fomos procurar
a água que resta
do ano que passa.

Senhora Luna
a farinha?

Está secar

Tarda a chuva seca o milho

A lavra não vai medrar.

Chimutengue, meu vizinho
então por cá?

Pois que vim te visitar
te avisar
que o meu gado vai passar
aqui por perto

Tarda a chuva e é preciso
procurar
o que lhe dar de comer
o que lhe dar de beber

O capim está ficar negro
está na hora de mudar.

Imigrante Silva, a tua mulher?

Está mal.
Que é do leite pra lhe dar
a carne pra lhe engordar?

E os filhos?

Estão magrinhos
doentados
vão ficar igual com o pai

Que é da escola pra lhes dar
sapatos pra lhes calçar
oficio pra lhe ensinar?

Dunduma amigo
companheiro Chipa
Zeca, Ernesto, Calembera.
olhai pelo gado.
Protegei os pastos.
Olhai pela vida das fêmeas
e pela saúde dos machos.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

3.6.10

Confirmações




Um corvo de remota idade e fatigado brilho
vem morrer à beira-mar.

Aguarda atento
que a luz propícia desça no horizonte
para entregar-lhe a força derradeira
numa surtida de acerada angústia.

Descaem-lhe do dorso opaco e magro
as digitais membranas:
acumulam detritos de excremento branco.

Sobe-lhe à tona o olhar antes profundo
a vomitar o fluido da ansiedade.

Projecta-se disperso à contra-luz.
Reduz-lhe o contorno ardendo ao sol poente.
Entra no sonho às cegas ganha altura
e tomba leve e negro no areal fictício.

Breves segundos mais
para que o vento alcance a história curta.

Depois renasce em escamas de carvão.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola

21.5.10

Chagas de Salitre



Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roidos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

26.2.10

Diogo Cão às Portas do Zaire



Deste lado da história
o rio morre aqui.
Do mar sabemos nós e aos capitães
a fama da conquista.

Faço-me ao Sul
porque pertenço ao Norte
e a costa só me serve p'ra cumprir
tarefas de abandono.

Meu fim é circular, ir mais além.
Por isso eu sei de estrelas
direcções
e nada sei de fruto
que se projecta e espera.

Cumpro tarefas, sim, porque viajo.
Assim nasci
sabendo o que me aguarda após a descoberta.
Fronteiras
só conheço as do meu lar
e sei amá-lo, só,
noutras distâncias.

De Deus, empreendi que mora aqui no mar,
porque sou eu
quem lhe constrói a face.
Ao Rei e a Vós
apenas dou noticias do rumo horizontal.
Pois que sabeis da vertical sagueza?

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

25.1.10

Eu Tenho os Dias Claros




para o António

Eu tenho os dias claros
de sucessivas luas de Setembro
e a noite que me impõe sinalizar
as direcções cruzadas das mensagens verticais.

Eu estou parado no meio do terreiro
pastado dos meus passos e da minha gente,
ando a ganhar noções de translação
e a medir, pra meu governo, a cor do sol.

Eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento
que não devo perturbar na sua rota alheia.
Permito, quando muito, que me sinta o cheiro
e deixo-o desfazer, furtivamente, molhos já secos de memória
fêmea.

Eu finjo que não sei de elásticas tensões da claridade
e a cada passo meu faço estalar
membranas frias que a tarde debruou em rente azul.

Entendes, companheiro,
eu estou aqui sentado e nu
a procurar não ir além da bárbara carícia
de um olhar sem tacto

e que nem uma lágrima machuque
a capa muito fina da lembrança
que tenho para dar-te.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola