794ceedb99cf (340x196, 25Kb)
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade. Mostrar todas as mensagens

1.7.11

O sal da língua


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extingue o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

30.6.11

Os girassóis



Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
Estou tão orgulhoso
por este flor difícil ter entrado pela casa.
É talvez o último verão,
tão feito de abandono é meu desejo.
Mas estou orgulhoso dos girassóis.
Como se fora seu irmão.

Eugénio de Andrade

30.3.11

Amanhecer em Estremoz



Uma a uma a noite abria
à luz matinal das rolas
as minúsculas portas da alegria.

Eugénio de Andrade

1.12.10

Impetuoso, o teu corpo é como um rio



Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

30.11.10

As maçãs


Também ele vai morrer, o verão.
Do verde ao vermelho
as maças ardem sobre a mesa.
Ardem de uma luz sua, mais madura.
E servem-me de espelho.

Eugénio de Andrade


26.6.10

Poema

 (700x489, 184Kb)

vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade

26.5.10

Surdo, Subterrâneo Rio


Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

1.5.10

Catavina


Obstruído o caminho da transparência
só me resta reunir os fragmentos do sol
nos espelhos
e com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal
dos mastros.

Quanto mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.

Eugénio de Andrade