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27.5.11

Amar é mesmo assim



ela tem uma ave nos contornos de mulher
e me vê com as escleróticas em fuga.
deixa-se ir ao tempo com um corpo de navio
enche a embala com o seu todo.
ela emergiu da “casa inabalável”
e victoriosa depôs o soba.
rendo-me à vassalagem quero-a solta e rica.
certo ou incerto os sonhos errados
tornam-se vivos: como um compêndio de
mil escrituras no amor que gesticulo.

João Tala
Angola

19.1.11

O mundo recriado a partir dos olhos dum mulher




Sou a palavra que você não disse
o nome que você não chamou.
Contigo viverei palavras desiguais
palavras ardidas na língua que as prolonga;
palavras perdidas e procuradas
onde tentas o sonho
(não há mais nada para sonhar?)
Sou a palavra que você não disse
uma canção ao maravilhoso.
As páginas perseguem-me e
da retórica colhes os números;
mas os números não dizem nada
- são preocupações do pouco,
sem as contar sem as procurar.
Eu sei, nos teus olhos, mulher
se eleva o pensamento;
dos teus olhos, mulher
Deus recriará o mundo.
Assim fora o começo d'olhos pensados
nas mãos de Deus.

João Tala
Angola

19.11.10

Obituário


Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;
depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão
sem nada para acrescentar à morte
sem nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.

João Tala
Angola

19.9.10

Psiquiatria II




Todos me acham que sofro de miséria
faço de cada história um reboliço.
Mas devagar essa cicatriz banal eu escrevo;
esse ardil de loucos é um poemário;
um documento daquelas minhas dores.
Tudo vai mal, dizem. Tudo vai !
vai a raiva tão simples como fazer perguntas;
vai de passada qualquer maluco palpitando
[muita gente;
e vão outros palpitando os relógios
[automáticos:
...tic-tac tic-tac tic-tac...
Os tique-taques nascem das nossas bocas.
Bocas dissolvidas. Noites volémicas..
Os sentidos moídos na rua dos atritos.

João Tala
Angola

Psiquiatria I




Reverbero de minha esquizofrenia
dias de mim cuidados
atravessei o Hospital Psiquiátrico
ninguém mais mora lá;
os doutores partiram quando o tempo
[envelheceu
e o princípio pariu o fim - uma estrada
onde passo com o livro descuidado,
sem brio, um tratado de loucura.
É o tempo abordado e paginado
com o sangue na caneta;
o tema das cicatrizes que não foram
[encontradas
porque a enfermeira as escondeu
quando forjava a própria madrugada

João Tala
Angola

19.7.10

Me reconstruindo


Onde ontem me torturavam
renascem as pálpebras demolidas
posso ver pedras que baralham pedras
posso ver a cor de todas as pálpebras
alçadas do escombro
ou como eram trémulas mãos
adejando outras pálpebras,

escombro de mim pedra numerosa
me levanto e reconstruo
o que a mão tem dentro de mim;
encho as pálpebras é porque choro
se choro refaço o sonho, é verdade.
Verdade acumulada de todos meus dias.

João Tala
Angola

19.6.10

Tontura




ainda apagam pálpebras de volta à tontura
ainda o sentimento da nossa longa história
a ruína vai da notícia à revolução
palavras mortas nunca mais preenchidas
os rios demorados no sintoma dos países
e tudo passa e o poema indaga
o dia que acontece como uma ruína.

João Tala
Angola

19.4.10

Canto as veias




a. as cores da terra

fomentava sementes da concórdia
hinos à longitude. cantava
veias ateadas no ventre
içava o sangue das bandeiras
rumo às violetas dissimulando
um mundo ardido na cor rubra
dos velhos panos.

b. o hino nacional

da língua orvalhada
um som ressalta
o sangue nacional.
tomo-lhe o fio arvora
palavra em parto.

e são já as sílabas
um pergaminho do
corpo cantado na
povoação.

João Tala
Angola