30.9.10

As palavras de adeus


A realidade é maior que a verdade meu amor
somos mais do que o sol e do que o mar e
em nenhuma metáfora cabemos
mesmo quando dizemos eu
sou a música tu és o luar

com cadeias de ferro nos unimos
em nosso nome jurámos
pelas casas dos frutos bebemos
de mel silvestre nos alimentámos

mas de fora sempre ficou
algo que nos próprios sentimentos já não coube
e um gosto que indicou algo
que a boca já dizer não soube

entre as coisas as palavras e a sua mudez
paira a irrealidade de
que nos fizemos
nem uma só vez foram verdade as
palavras de adeus que nos dissemos

Fernão de Magalhães Gonçalves

29.9.10

Terra de Canaã



Não, piloto Israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos.

E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.

Foi para este holocausto que sobreviveste
ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?

José Craveirinha
Moçambique

Não digas nada!


Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem

Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa

O Ladrão de Versos



Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.

Rui Knopfli
Moçambique

28.9.10

Segredo


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projetou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração

Fernando Pinto do Amaral

Uma ilusão levanta-se de um escombro




Uma ilusão levanta-se de um escombro mas não se apanha
o poeta que por ela mais a ensaiou num percurso e palco
que nunca fora estranho a Deus. Um cágado não pode passar
limpo e com estilo pela cinza porque não viu
como mais à frente se salvou uma lavra. Salva-se algo
como a primeira escolha
apesar de todos não terem para onde se virar senão
para a fé da palavra que nos pede
um momento
de vaidade.

Adriano Botelho
Angola

26.9.10

Primer brinquede de Tói



A criança ficou bêbada de chuvasol
E apostou
Que as mãos
E as ilhas
Voariam gémeas
Assim aves de espaço & tempo

E diz a criança
“sob o olho da terra arável"
Sou a semente
Por onde sonha
A cabeça do arqupélago

Corsino Fortes
Cabo Verde

Proposição



Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
abertos
no olho da cabra

E membros de terra
Explodem
Na boca das ruas
Estátua de pão s6
Estátuas de pão sol

Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra
Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos

Corsino Fortes
Cabo Verde

25.9.10

Carreira de Gaza



Escusado fazer pontaria.
Chusmas de rajadas acertam sempre.

Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.

Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.

A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
José Craveirinha
Moçambique

24.9.10

Ovelhas e Bibliotecas: Sofrimentos


É um certo tom que eu não sei derivar
como devia: uma transparência, um esbatimento,
a abstracção das coisas.
A ovelha a meio do campo, vista deste combóio,
sofre só dessa teITivel solidez: ovelha

O mesmo se passa com a minha cozinha, ou
um livro, ou uma emoção:
um assado bem feito pode superar
qualquer capítulo bem anotado,
o cheiro das cebolas é às vezes
mais transcendente
do que tantos caracteres
a que f'aIta sal

Neste momento, está atrasado o combóio,
um inter-regional que pára nas estações todas,
mas há sol, e assim fico a conhecer
os apeadeiros portugueses, e talvez me sirvam
de poema mais tarde, e tenho o privilégio
de me comover com os seus tons
floridos

Agora a linha é mais simples e estreita,
correndo, paralela, à Estrada Nacional,
uma linha de frase básica,
só com os elementos principais.
Mas, às vezes, a ovelha que a atravessa, secante,
dá-lhe uma certa vírgula romântica

É num tom desses que eu me sei mover.:
no intermédio cruzamento
dos portões do real,
nas despensas do mundo

Essas em que guardo o resto dos temperos,
um ou outro feitiço
no Livro de Receitas -

Ana luísa Amaral

O meu amor



O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minhalma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

Chico Buarque
Brasil

23.9.10

Acto ou qualquer outra Coisa


Acto ou qualquer outra coisa. Eu sei, aquela mulher
tão tranquila
vendo da janela do quarto o porto
vendo dos barcos o fumo rente aos mastros
eu sei

essa mulher bem podia ter o nome quando
por detrás da janela observa
outras coisas que não são barcos e mastros.

Talvez os homenzinhos de azul despertem seus desejos
ou só o azul desbotado, mas não
não nessa janela nesse porto de cidade que não sei
e ela sabe

envolta no vestido, ruivo o cabelo,
envolta nas madeiras da portada.
O chão deve ranger sob os seus pés.

João Miguel Fernandes Jorge

20.9.10

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...



Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.


Mário de Andrade
Brasil

19.9.10

No material o andor das paredes




todos os dias estas velas traziam alegóricas cidades.
mesma surpresa confidente pé
o céu todo dia sentado.
na terra o material das paredes empurra deitado
o meio-dia vestido inesquecível encantamento.
os olhos adiante lúcia na irrigação hoje primeiro dia
eram falas no sétimo mês inquieto discurso dentro dele
o céu todo dia de pé.
a terra material das paredes declarativos os espelhos
vidro fundo o sinal próximo acinzentado andor
este lugar se nada ocupa só dissolve
o possível sorriso na imutabilidade do tempo

Abreu Paxe
Angola

Psiquiatria II




Todos me acham que sofro de miséria
faço de cada história um reboliço.
Mas devagar essa cicatriz banal eu escrevo;
esse ardil de loucos é um poemário;
um documento daquelas minhas dores.
Tudo vai mal, dizem. Tudo vai !
vai a raiva tão simples como fazer perguntas;
vai de passada qualquer maluco palpitando
[muita gente;
e vão outros palpitando os relógios
[automáticos:
...tic-tac tic-tac tic-tac...
Os tique-taques nascem das nossas bocas.
Bocas dissolvidas. Noites volémicas..
Os sentidos moídos na rua dos atritos.

João Tala
Angola

Psiquiatria I




Reverbero de minha esquizofrenia
dias de mim cuidados
atravessei o Hospital Psiquiátrico
ninguém mais mora lá;
os doutores partiram quando o tempo
[envelheceu
e o princípio pariu o fim - uma estrada
onde passo com o livro descuidado,
sem brio, um tratado de loucura.
É o tempo abordado e paginado
com o sangue na caneta;
o tema das cicatrizes que não foram
[encontradas
porque a enfermeira as escondeu
quando forjava a própria madrugada

João Tala
Angola

15.9.10

As velhas tias organizam velórios




As velhas tias organizam velórios
e com o pêndulo do ocaso

invertem as rotas dos barcos
saídos do cais ao fim da tarde.

Ecos que já não lutam com ventos perigosos
de aromas marinhos
anseiam chegar à ilha para ver os pássaros
e
preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida
Ao fim da tarde...

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

O anel de Corina



Enquanto espera a hora combinada
De o remeter com flores a Corina,
Ovídio oscúla o anel que lhe destina
E em que uma gema fulge bem gravada.

— « Como eu te invejo, ó prenda afortunada !
« Com ela vais dormir, mimosa e fina,
« Com ela hás-de banhar-te na piscina
« Donde sairá, qual Vénus, orvalhada,

« O dorso e o seio lhe verás de rosas,
« E selarás as cartas deliciosas
« Com que em minh'alma alento e esp'rança verte...

« E temendo (suprema f'licidade!)
« Que a cera adira à pedra, ai! então há-de
« Com a ponta da língua humedecer-te! »

Eugénio de Castro

13.9.10

Anjo Dialógico




Me alimento dos claros instrumentos
da água venal das estações
tectos de zinco calcinados
onde a chuva de Setembro polariza máscaras
de um reino mitigado por erosões de tristeza, pó & consternação
Alguns sulcos de emoção asseguram-me este lugar
de anjo dialógico num país de náufragos
engenhos de olhar e ouvidos arrancados
pelo refinamento de submarinos pássaros
São estas palavras a poeira
que a língua bebe à boca do vento
a cicatriz do gesto onde se exila
a escrita de virilhas ao sol

José Luís Mendonça
Angola

Hora do exílio


Repara ainda nos seus seios dormidos
que se fazem névoa ao tocar das suas mãos.
Repara ainda nos seus olhos húmidos
que se afastam como o fim duma canção.

Repara nos seus dedos que enlançam
uma última flor de solidão,
no abandono dos seus passos
que passeiam, uma folha caída pelo chão.

Repara no cansaço triste dos seus braços
na ternura dos seus cabelos lassos
no sorriso da sua deserção.

E se a coragem te povoar ainda os sonhos baços
que nunca o teu amor, amor, foi tanto
diz-me então.

Fernando António Almeida

12.9.10

Amnésia



Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

Fernanda Botelho

11.9.10



O encontro não teve lugar
porque a girafa não encontrou
um vestido adequado
à solenidade do momento

Joaquim Falé
Moçambique

A moral da história



Entretanto a vida constrói-se, é um facto.
O edifício ainda se não vê,
mas os alicerces ocultos estão sólidos
e profundos e operários silenciosos,
de rosto obscuro, deslizam neles
com uma eficiência anónima e implacável.

Gente ainda ignorada, sem importância
aparente, move com precisão a pá
e o tijolo. Gente que ignora certamente
estes versos mas sabe de toda a poesia
que há neles, porque a poesia está
implícita nos movimentos que traça.

Gente ainda sem nome aqui
e com que ninguém se importa,
mas que importa a toda a gente

Rui Knopfli
Moçambique

10.9.10

Sobrevivo



Sobrevivo
assim
casa vazia
em vasto mundo.

E tu mais dócil
em teu fiel
e paciente inferno
de enormes estrelas.

Sono de morte
sou voo raso
adagio breve
salmo e nostalgia.

Aqui nascemos
e voltamos
mortos
na memória
doce espiral,
de um tão
escasso fulgor.

Ana Marques Gastão

Viagem


O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

Mia Couto
Moçambique

8.9.10

O poeta chorava...



O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
nelas buscava Uma estrela talvez a salvação?
O poeta era sinceríssimo
honesto
total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões

E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do logro é um tanto sinistro
mas é inevitável é um bem é uma dádiva

Tirai-lhe agora os poemas que ele próprio despreza
negai-lhe o amor que ele mesmo abandona
caçai-o entre a multidão
crucificai-o de novo mas com mais requinte.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com ele.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA DESTROI-VOS

Mário Cesariny

6.9.10

Auto-Retrato



Nome: Vinicius. Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que nasci.

Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Baía (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.

Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.

Filhos: três e um a caminho

Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.

Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos…)

Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta
(Activo). Sou materialista.

Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.

Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.

Actualmente sou segundo
Secretario de Embaixada.

Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.

Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.

Prefiro vitrola a rádio
Automóvel atrem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).

Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.

Minhas frutas predilectas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.

Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).

Tinha dezanove anos
Quando estreei com meu livro
O Caminho para a Distância
Meu preferido é o último:
Poemas, Sonetos e Baladas.

Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei jiu-jitsu
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabina
Sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.

As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(Com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.

Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz
(E infeliz). Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boémio.

Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.

Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Conde nada mais digo.

Vinicius de Moraes
Brasil

5.9.10

E de novo a armadilha dos abraços.


E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos

Rosa Lobato Faria

3.9.10

Aconselho-vos o amor



Aconselho-vos o amor:
o equilíbrio dos contrários.
Aconselho-vos o amor
cheio de força; os moinhos
girando ao vento desbridado.
Aconselho-vos a liberdade
do amor (que logo passa
— vão dizer-vos que não —
para os gestos diários).


Fernando Assis Pacheco

2.9.10

Afrodite


Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divagadores,
ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.
Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão
provocante de pudor, de volúpia, de
reserva, de abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?
Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.
Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...


Irene Lisboa

1.9.10

Nas crateras do beijo e do silêncio


Se te pudesse prender a mim
por um dia,
ganhava a esperança e a tua alma.
Ganhava o tempo
e o mosto do vinho novo crepuscular
das crateras do beijo
perdido em explosões de imponderáveis
desejos.

E morreria contigo!
Morreria no espaço do teu corpo
desejado,
No silêncio da palavra no verbo
no verde da giesta e da urze
no campo de trigo.

Subiria os degraus do altar do teu peito
virgem com sabor ao leite
da vida
que cresce em ti como um lacre
como o testamento do teu corpo
fechado no segredo dum cofre.

O fermento do pão o mosto do vinho novo
as maravilhas da noite
o teu sorriso imenso derramado em mim
como um rio…
Os espasmos, os verdadeiros espasmos
do teu corpo vibrante
em segredo…
Morreria contigo!


Álvaro Giesta